Imagem: Lorena Gonçalves/Nerdisse

RESENHA | Outros Jeitos de Usar a Boca

Ainda que se enquadre em um dos gêneros mais tradicionais de nossa literatura – a poesia – a autora conseguiu brincar com a estrutura dos versos, trazendo a sua essência e o excêntrico em cada uma das páginas. Tanto na diagramação quanto na escolha de palavras, é possível perceber essa tentativa de romper com as expectativas e com o tradicional, juntamente também à valorização da arte e sua representação na forma mais bruta.

Outros jeitos de usar a boca foi a “primeira gota” na leva dos livros poesias que a cada dia se tornam mais famosos no Brasil e em todo o mundo. Escrito por Rupi Kaur em 2014, com 272 páginas, a obra evoca os mais variados sentimentos e sensações por meio de histórias de vida transcritas em forma de poesias secas.

“não quero ter você

para preencher minhas partes vazias

quero ser plena sozinha

quero ser tão completa

que poderia iluminar a cidade

e só aí

quero ter você

porque nós dois juntos

botamos fogo em tudo” (p.59)

Dividido em quatro partes: O amor; A dor; A Cura e A Ruptura, nada nunca pareceu tão certo ou tão especial, mas não menos chocante quanto as frases e composições que encontramos em cada um dos segmentos. Outros jeitos de usar a boca é um livro pesado, no sentido que te faz refletir sobre o amor, o sexo, relacionamentos e a vida sem papas na língua. Não existem meias-palavras, nem meio-sentimento, tudo é intenso e duro, como a realidade pode ser. Além disso, a união desses elementos com as experiências pessoais da autora possibilita com que a leitura se torne ainda mais pessoal e excêntrica.

“o que mais sinto falta é de como você me amava. mas o que eu não sabia é que seu amor por mim tinha tanto a ver com quem eu era. era um reflexo de tudo o que eu dei pra você. voltado pra mim. como não percebi isso. como. pude ficar aqui imersa na ideia de que mais ninguém me amaria daquele jeito. se fui eu que te ensinei. se fui eu que te mostrei como preencher. do jeito que precisava ser preenchida. como fui cruel comigo. te dando o crédito pelo meu calor só porque você o sentiu. pensando que foi você quem me deu força. inteligência. beleza. só porque reconheceu essas coisas. como se eu não fosse tudo isso antes de te conhecer. e se não continuasse depois que você se foi” (p.138)

A obra ficou no primeiro lugar da lista do New York Times por algum tempo e entre os mais vendidos na Amazon e na Saraiva por meses. Por mais que aquela não se enquadre em autoajuda, como dito anteriormente, pode causar o mesmo efeito em seu leitor.

Inquestionavelmente, um dos aspectos mais interessantes é que cada pessoa que o lê, interpreta de uma forma e tira lições próprias. Para mim, ele surgiu em um momento oportuno, em que eu precisava refletir sobre a minha vida e a forma com que lidava com meus relacionamentos – com outras pessoas e comigo mesmo.

Um texto bem escrito não toca só os seus olhos, ele preenche a sua alma e te faz repensar sobre sua vida inteira. Ele mexe com o seu cérebro, ao mesmo tempo em que cutuca o seu coração e te envolve a cada página. Outros jeitos de usar a boca está entre as leituras mais singulares que já tive em toda minha vida, além de também, uma das mais especiais e tocantes.

Nunca pensei que fosse gostar de poesias, finalizei a obra com uma opinião completamente diferente e sei que aconteceu a mesma coisa com vários de meus amigos e amigas. Recomendo para todas as pessoas que querem refletir ou simplesmente tentar compreender a vida a partir de outro olhar.

“você precisa começar um relacionamento

consigo mesma

antes de mais ninguém” (p.150)

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