CRÍTICA | Anne with an ‘E’

CRÍTICA | Anne with an ‘E’

Queremos ser diferentes. Ser diferente está na nossa individualidade, na nossa imaginação e nas nossas ambições. Queremos sentir e mostrar ao mundo que somos únicos. Anne não quer, ela é. Sensível, perspicaz, observadora, comunicativa, artística e compreensiva. Anne é tudo aquilo que queremos, mas deixamos de ser. No nosso meio social temos o esteriótipo enraizado de que a diferença do outro é negativa e essa é apenas uma das críticas de Anne with an ‘E’, produção da Netflix com o canal CBC.

Anne Shirley (Amybeth McNulty) é uma garota orfã que, por engano, é adotada por um casal de irmãos que queria um menino para ajudar nos afazeres da fazenda canadense Green Gables. Tentam fazer a troca, mas sem coragem aceitam recebê-la. Anne transforma a vida de Marilla (Geraldine James) e Matthew Cuthbert (R.H. Thomson) trazendo imaginação e amor. Logo nos primeiros momentos da menina naquela pequena fazenda em pleno século XIX já sabemos que ela está muito à frente de seu tempo.

Moira Walley-Becket, responsável por adaptar o livro de 1908 “Anne de Green Gables”, de Lucy Maud Montgomery, apelidou Anne de “feminista acidental”. Não poderia haver um apelido que faz mais jus aos ideais da menina. A ruiva começa a derrubar tabus logo no início ao questionar se uma garota não poderia fazer o mesmo trabalho que um homem – segundo ela, até mesmo melhor. É desde esse instante que as pautas feministas começam a ser colocadas na trama, passando de questões sobre menstruação até a obrigação do casamento. Além disso, há a presença do bullying na vida de Anne e as imposições que diversas vezes são baseadas em posições da igreja daquela época.

Anne cria um mundo dentro dessa sociedade patriarcal e preconceituosa – mais enraizada, porém não diferente dos dias atuais – que é apenas dela e que somos convidados a entrar. Quem nos faz invadir essa imaginação é Amybeth McNulty. É dificil imaginar uma atriz tão nova passando tanta verdade e simplicidade para uma personagem tão profunda. É por McNulty que compreendemos Anne e tudo aquilo guardado dentro dela. Reconhecemos seus traumas, auxiliados pelos flashbacks, mas que sem a atriz não seria possível perceber a gravidade de todos eles. Nos unimos a atuação de Amybeth que não sabemos desvencilhar a imagem dela de Anne. Sorrimos com ela, choramos com ela, corremos com ela. Ah, como corremos. Em cada fuga da Anne, nós estamos juntos fugindo das humilhações que a garota passa até os outros personagens se adaptarem a sua grandiosidade.

O ambiente criado pela produção da série também contribui. O retrato do século 19 está em tudo o que olhamos. Boa parte disso diz respeito aos locais escolhidos. Algumas cenas foram gravadas na Ilha do Príncipe Eduardo e outras na cidade de Ontario, ambos no Canadá, por se assemelharem a Green Gables da literatura. A fotografia com tons do impressionismo como vermelho, cor tijolo, tons de verde, azul e com a luz amarela muito presente (tanto nas cenas iluminadas pela luz solar quanto pelas velas) somam ao figurino típico da época, como os vestidos com mangas bufantes que Anne adora.

Anne é um ser singular e faz da série singular também. Poderíamos falar horas sobre cada característica da produção e, mesmo assim, ainda restaria outras questões para debate. Anne with an ‘E’ representa superação, tanto da personagem principal quanto de outros personagens. É sobre ver beleza e esperança onde parece não haver. Parafraseando a própria Anne Shirley-Cuthbert: “Não é o que o mundo tem para você, é aquilo que você traz para o mundo”. Seja diferente, imagine.

Nota Nerdisse:  (5 / 5)

Veja o trailer:

Um Comentário

  1. Bianca Santos

    Não sabe o quanto é maravilhoso ver outra pessoa falando sobre essa série tão subestimada ! Comecei a assistir por indicação de uma antiga professora de escola, e foi a melhor escolha que fiz! Essa série é maravilhosa, e eu sorri lendo cada palavra da sua resenha. Concordo plenamente com tudo que diz . Os assuntos retratados na série são abordados de forma tão inteligente que se encaixa perfeitamente no contexto que a série passa.
    Anne é uma personagem incrível! Ela me inspira de diversas formas – não só sobre não se encaixar no esteriótipo para que os outros te aceitem, mas também a ser grata por tudo . Anne passou por muitos bocados na vida e ainda passa depois de ter sido adotada, mas mesmo assim, ela sempre tenta enxergar algo de bom em tudo e não esconde seus sentimentos e pensamentos, algo que estou tentando alcançar!
    Obrigada pela resenha e parabéns pela forma como escreveu os detalhes que captou ( como em relação as cores quentes do cenario mesmo em cenas de noite – essa imagem traz muita levesa e vida pra série!) e também parabéns pelo bom rosto ao ver essa série incrível! Espero que não cancelem como estavam falando e renovem para mais uma temporada!

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